Quem sou

Um remédio para cada sintoma. Nenhum para a causa.

Passei quase vinte anos no mercado financeiro. Quase todo esse tempo foi positivo, cheio de aprendizado e satisfação real com o que eu fazia.

Colagem editorial: mulher carregando pilha de pastas enquanto outras mãos adicionam mais peso, com colegas reagindo ao redor

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Foi numa mudança de emprego, nos últimos dois anos dessa trajetória, que tudo começou a desandar. Passei a lidar com decisões que eu não controlava e não concordava, mas que cabia a mim executar.

Vi pessoas da minha equipe sendo desligadas ou remanejadas por critérios que nunca me foram explicados. Segurei o desconforto de comunicar decisões que eu sabia serem injustas, e vi colegas adoecerem ao meu redor, num ambiente que não amparava ninguém de verdade.

Colagem editorial: mulher sentada cercada por remédios, ligada por um fio a uma mesa de trabalho

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O corpo foi cobrando a conta antes que eu conseguisse nomear o motivo. Comecei a tratar ansiedade, com medicação. Depois veio a depressão. Para cada sintoma novo, um remédio novo. Por muito tempo, ninguém perguntou o que estava, de fato, causando tudo aquilo.

O burnout demorou a ser diagnosticado. Hoje sei que, sem entender essa conexão, eu jamais teria conseguido sair daquela situação: era o trabalho, e não uma falha em mim, que estava me adoecendo.

Colagem editorial: pessoa careca sentada de costas, cercada por caminhos de papel rachados e um crachá de trabalho largado no chão

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Foi nesse contexto que apareceram os primeiros sinais da alopecia areata, uma doença autoimune e multifatorial, mas fortemente conectada ao estresse. Em quatro meses, perdi todo o cabelo.

Não dava mais para continuar naquele emprego, nem para arriscar a saúde de novo daquele jeito.

Fiquei alguns meses sem rumo.

Colagem editorial: mulher estudando à mesa, cercada por fichas com diagramas de psicologia, conectadas por um fio ao crachá de trabalho largado ao lado

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Foi nesse tempo que a Psicologia apareceu. Não como uma alternativa qualquer de carreira, mas como uma forma de dar outro sentido ao que eu tinha vivido. Comecei a estudar o que realmente havia acontecido comigo, e quanto mais eu entendia, mais claro ficava que eu não tinha sido a única pessoa a viver algo assim, só a única que, até ali, não sabia nomear o que estava sentindo.

Colagem editorial: mulher em sua mesa de estudos, com um painel de sinais de alerta ao lado e, ao fundo, um grupo de pessoas trocando documentos em rede

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Hoje consigo olhar para tudo isso e dizer, mesmo que soe estranho, que tive sorte. Cabelo cresce de novo. Existem tratamentos, e peruca é uma alternativa enquanto isso não acontece. Nem toda consequência do estresse prolongado tem esse tipo de saída, e foi isso que me fez querer escrever sobre o que está em jogo quando alguém ignora os próprios sinais por tempo demais.

Hoje sou estudante de Psicologia e dedico parte da minha pesquisa acadêmica ao estudo do burnout. É dessa combinação de vivência, estudo e pesquisa que nascem os textos que escrevo sobre trabalho, saúde mental, identidade e maturidade.

Meu compromisso aqui é compartilhar conhecimento, não substituir cuidado profissional. Ainda estou em formação, e este espaço existe para informar e educar. Diagnóstico, tratamento e qualquer decisão sobre a própria saúde continuam sendo conversa para um profissional.

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